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Como Perdoar Quando Ainda Dói?

Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós. Mateus 6:14


O perdão sempre foi um dos maiores desafios da alma humana. Embora muitos o romantizem, apresentando-o como um gesto simples ou um ato natural de bondade, a verdade é que perdoar exige mais força espiritual do que qualquer conquista terrena. Jesus, porém, nos apresenta o perdão não como uma opção, mas como um caminho inevitável para quem deseja viver sob a graça. Ele afirma: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará” (Mateus 6:14). Esta declaração revela uma dinâmica profunda do Reino: só entende o perdão quem reconhece o tamanho da própria dívida diante de Deus.


Quando olhamos para a nossa condição caída, percebemos o quanto fomos alcançados por uma misericórdia que nunca poderíamos pagar. Paulo escreve que “Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Romanos 5:8), revelando que o perdão divino não depende do mérito humano, mas da graça. Esse entendimento deveria moldar nossa disposição de perdoar os outros. No entanto, a dor causada pelas ofensas, traições e injustiças frequentemente fala mais alto do que a nossa fé. É fácil resistir ao mandamento do perdão quando o coração sangra. Ainda assim, a Palavra nunca condiciona o perdão à ausência de dor, mas sim à obediência.


Jesus aprofunda o tema ao ensinar Pedro que o perdão deve ser ilimitado, “até setenta vezes sete” (Mateus 18:22), revelando que o perdão não é uma emoção momentânea, mas um estilo de vida. Aqui está um ponto que muitos não compreendem: o perdão não começa no outro; começa em nós. Não se trata de esquecer o que aconteceu ou fingir que a dor nunca existiu, mas de romper o ciclo de aprisionamento emocional e espiritual que mantém a alma acorrentada ao passado. A falta de perdão transforma o coração num cárcere onde o ofensor controla o ofendido, e não o contrário. Cristo nos convida, então, a um perdão que liberta não apenas quem feriu, mas principalmente quem foi ferido.


A parábola do credor incompassivo (Mateus 18:23–35) nos confronta como um espelho espiritual. O servo que foi perdoado de uma dívida impagável recusou-se a perdoar uma dívida pequena. Quando o rei soube, ordenou que fosse entregue aos torturadores. Jesus declara: “Assim também vos fará meu Pai celeste, se de coração não perdoardes cada um a seu irmão”. A imagem dos “torturadores” é simbólica: a amargura, o ódio, a ansiedade, a perda de paz e o ressentimento se tornam carrascos que nos atormentam dia e noite. Negar o perdão aos outros não fere somente o próximo; destrói o interior de quem se recusa a amar.


Entretanto, perdoar não significa se expor novamente a relacionamentos abusivos ou permitir que a injustiça continue. A Bíblia ensina que “acautelai-vos” (Lucas 17:3) e que há tempo para se afastar do mal (Salmo 1:1). O perdão é um ato espiritual; reconciliação, porém, é um processo humano. Nem sempre será possível restabelecer a convivência, mas sempre será necessário remover o peso espiritual que impede o fluir da graça. Perdoar é confiar que Deus é o justo juiz (Romanos 12:19) e que Ele sabe lidar com cada situação melhor do que nós.


A verdade é que só conseguimos perdoar de forma plena quando entregamos a dor ao Espírito Santo. A carne jamais desejará perdoar, mas o Cristo que habita em nós nos capacita a fazer o que é impossível. Paulo declara: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13). O perdão não é fruto do nosso esforço natural, mas da transformação interior que o Evangelho produz. Quanto mais reconhecemos o perdão que recebemos de Deus, mais somos habilitados a perdoar aqueles que nos ferem. Nesse sentido, perdoar é um testemunho vivo do Evangelho operando em nós.


Por fim, Jesus nos lembra que o perdão que oferecemos determina o perdão que recebemos (Mateus 6:14–15). Isso não significa que conquistamos o perdão por mérito, mas que a incapacidade de perdoar revela um coração que ainda não compreendeu verdadeiramente a graça. Quem foi alcançado pelo amor divino aprende, pouco a pouco, a derramar esse mesmo amor sobre os outros. O perdão é a ponte entre a nossa vida e o coração de Deus; é o caminho pelo qual a paz flui, a alma descansa e a liberdade espiritual se manifesta. Quem perdoa não perde, vence. Porque perdoar é escolher viver como Cristo viveu: amando até quando doeu, entregando-se sem reservas e confiando plenamente no Pai que tudo vê


Deus Abençoe!



Pastor Erik Santana

Graduado em Teologia, com especialização em Episcopologia e Escatologia pelo International Seminary Hosanna Bible School. É autor dos livros cristãos As Quatro Torres (Zonas de Ataque Espiritual), A Nova Criatura, Ensina-nos como orar e Famílias que salvam cidades.




 
 
 

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