top of page

Qual Jejum Agradável a Deus Temos Apresentado?

E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mateus 6:16



Nosso ponto de partida é a Palavra infalível de Deus, conforme registrada no Evangelho de Mateus, no cerne do Sermão da Montanha, onde o Mestre nos adverte com uma clareza incisiva.

Mateus 6:16 - “E, quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque eles desfiguram os seus rostos, para que aos homens pareça que jejuam. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão.”

Esta declaração de Jesus Cristo revela uma dinâmica profunda do Reino: o jejum, embora seja uma disciplina espiritual valorizada, pode se tornar um ato de extrema hipocrisia se a motivação for o reconhecimento público. Jesus não proíbe o jejum a Sua frase, “E, quando jejuardes”, assume a sua prática, mas Ele o regula eticamente, redirecionando a nossa atenção do palco humano para o secreto de Deus.


O problema que Jesus identifica não reside no ato de abster-se de alimento, mas na intenção que o move. Os "hipócritas" , transformam o jejum, que é um ato de humilhação privada (cf. Salmos 35:13), em um espetáculo de piedade pública. Eles "desfiguram os seus rostos" intencionalmente buscando parecer miseráveis para garantir que a sua "santidade" seja notada e louvada pelos homens. A teologia reformada nos ensina que toda adoração verdadeira é dirigida a Deus e motivada por Ele, e o jejum que busca o aplauso humano é, categoricamente, uma obra morta.


Quando olhamos para o plano de Deus, percebemos que Ele busca uma sinceridade radical no coração do Seu povo. Jesus está nos alertando sobre a perversão do ego, que tenta capitalizar as disciplinas espirituais para fins de auto-exaltação. O jejum autêntico é um ato de confissão da nossa dependência de Deus e de desligamento dos apetites mundanos (cf. 1 João 2:16), um tempo dedicado à intercessão (cf. Atos 13:2-3) e ao arrependimento (cf. Jonas 3:5-8). No entanto, o jejum dos hipócritas de Mateus 6:16 era uma mera fachada de piedade, uma tentativa de acumular méritos diante dos homens, garantindo para si o "galardão" (a recompensa) que lhes era devido nesta vida e, consequentemente, esgotando a sua conta celestial. A dor da abnegação física era facilmente superada pelo prazer da glória humana, o que tornava o sacrifício vazio e, na verdade, ofensivo à santidade de Deus, pois roubava dEle a glória devida.


Jesus aprofunda o tema ao contrastar o jejum dos hipócritas com o padrão divino. Ele instrui Seus discípulos a jejuar de forma discreta: "unge a tua cabeça e lava o teu rosto" (Mateus 6:17), ou seja, apresente-se normalmente, para que o seu jejum não seja notado por ninguém, "senão por teu Pai, que está em secreto" (Mateus 6:18). Aqui está um ponto que muitos não compreendem: a verdadeira piedade não é um show, mas uma relação. O jejum, assim como a oração e a esmola (Mateus 6:1-18), é uma disciplina que deve ser cultivada no esconderijo da alma, no santuário secreto da comunhão com o Pai. Não se trata de esconder o jejum em si, mas de esconder a intenção de ser visto. A nossa Justificação é pela graça somente, mediante a fé somente, em Cristo somente, e o jejum, como obra de santificação, deve ser uma evidência dessa graça, e não um esforço para ganhá-la.


A profundidade da lição de Mateus 6:16 se manifesta no Antigo Testamento, onde os profetas denunciaram repetidamente o ritualismo vazio. O profeta Isaías, por exemplo, expôs a futilidade de um jejum que coexistia com a injustiça social e a opressão (Isaías 58:3-7). Os israelitas jejuavam, mas oprimiam seus trabalhadores. Deus, então, pergunta: "Seria este o jejum que eu escolheria?". O jejum que agrada ao Senhor não é aquele que se manifesta na aparência de contrição, mas aquele que se traduz em uma transformação ética da vida e em ações de misericórdia (cf. Tiago 1:27). A abstinência de comida deve nos tornar mais sensíveis à voz de Deus e às necessidades do próximo, e não mais orgulhosos de nossa própria disciplina. A verdadeira fome é pela justiça e pela Presença de Deus (cf. Salmos 42:1-2), e não pelo louvor dos homens.


Entretanto, o jejum cristão não é uma performance de penitência forçada, mas uma ferramenta de consagração que o Espírito Santo utiliza para aprofundar a nossa fé. O objetivo é quebrar o poder das nossas paixões desordenadas e realinhar a nossa vontade com a vontade de Deus. Perder o foco e buscar a aprovação humana é um sintoma da velha natureza que se recusa a morrer, tentando converter um ato de humildade em um instrumento de vaidade. A tragédia da sentença de Jesus, "já receberam o seu galardão," é que o galardão humano é, na verdade, o nada eterno. O Senhor nos convida a acumular tesouros que não se desvanecem (Mateus 6:19-21) e que são concedidos pelo Pai que vê no silêncio do nosso coração.



A verdade é que só conseguimos jejuar de forma plena quando entregamos a vaidade e o ego ao Espírito Santo. A carne jamais desejará humilhar-se de forma discreta, mas o Cristo que habita em nós nos capacita a fazer o que é impossível à nossa força natural. Paulo declara: “Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13). O jejum bíblico não é fruto do nosso esforço farisaico, mas da transformação interior que o Evangelho produz. Quanto mais reconhecemos a glória de Deus como a nossa única recompensa, mais somos habilitados a buscar a Sua face em secreto. Nesse sentido, o jejum discreto é um testemunho vivo do Evangelho operando em nós, onde o nosso único espectador e juiz é Deus.


Por fim, Jesus nos lembra que o jejum, como qualquer disciplina espiritual, deve ser uma ponte para a intimidade, e não um muro de separação. A incapacidade de jejuar em secreto revela um coração que ainda não compreendeu verdadeiramente a graça, preferindo a glória temporal à glória eterna. Quem foi alcançado pelo amor e pela aceitação divina aprende, pouco a pouco, a buscar a aprovação somente de Deus. O jejum é o caminho pelo qual a dependência de Deus se manifesta, a alma descansa no Seu propósito e a liberdade espiritual se consolida. Quem jejua para Deus não perde, vence. Porque jejuar é escolher viver como Cristo viveu: buscando a vontade do Pai em oração e jejum (cf. Mateus 4:1-11), sem reservas e confiando plenamente no Pai que tudo vê e que nos recompensará em eternidade.


Deus Abençoe!



Pastor Erik Santana

Graduado em Teologia, com especialização em Episcopologia e Escatologia pelo International Seminary Hosanna Bible School. É autor dos livros cristãos As Quatro Torres (Zonas de Ataque Espiritual), A Nova Criatura, Ensina-nos como orar e Famílias que salvam cidades.




 
 
 

Comentários


bottom of page